História

Área de concentração

A opção pela área de concentração em CULTURA E PODER, relaciona-se diretamente com o perfil dos profissionais docentes envolvidos nesta proposta. O movimento de renovação metodológica dentro das ciências humanas nas primeiras décadas deste século foi responsável por alargar domínios, estabelecendo relações com os outros campos do saber. Isto levou ao desenvolvimento de estudos mais amplos, como a alimentação, o meio ambiente, os objetos, as habitações, as técnicas, as artes, as cidades, os ritos, os saberes e fazeres, as identidades, as culturas, a territorialidade, os patrimônios culturais, os acervos, coleções e Museus, enfim categorias de diversas naturezas presentes nas sociedades humanas. Tais categorias passaram a definir o que se convencionou chamar de vida material, “os homens e as coisas”, “as coisas e os homens”, que está profundamente conectada com os contextos simbólicos e significados que lhe são atribuídos por diferentes culturas.

O resgate desses objetos pelas ciências humanas foi essencial para o desenvolvimento dos estudos culturais. A vivência material colocou em cena os homens e mulheres, e reintroduziu o debate acerca de sua vida cotidiana, na medida em que esta é um testemunho dos sistemas de relações econômicas, ações ideológicas, mentais e simbólicas, permitindo a reconstituição de espaços habitados, sua organização e construção pelas coletividades.

Por ser uma palavra-chave das abordagens atuais, a noção de cultura torna-se de difícil definição. Não só a cultura é dinâmica, como o próprio conceito o é. A cultura costuma aparecer margeada ou por conceitos amplos demais – tudo que não é natural – ou por acepções demasiado instrumentais – conjunto de utensílios, padrões de comportamento, valores etc. Segundo Raymond Williams “a ideia de cultura é a resposta global que demos à grande mudança geral que ocorreu nas condições de nossa vida comum” (1969, p. 305).

Em consonância com essas mudanças, tomamos aqui a cultura fora do espectro evolucionista e instrumentalista, defendido pelos primeiros antropólogos, adotando uma perspectiva semiótica, de que a ”cultura” não seria simplesmente um referente que marca uma hierarquia de “civilização”, mas a maneira de viver total de um grupo, sociedade, país ou pessoa (DaMatta, 1986). Segundo Raymond Williams (1969, p. 20) a cultura seria “todo um modo de vida que não é apenas maneira de encarar a totalidade, mas ainda a maneira de interpretar toda a experiência comum e, à luz dessa interpretação mudá-la”. De modo que, “cultura significava um estado ou um hábito mental ou, ainda, um corpo de atividades intelectuais e morais; agora, significa também todo um modo de vida”.

Nesta acepção cultura seria um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas. Como indica Clifford Geertz (1989, p. 57) “o homem é um animal amarrado em teias de significados que ele mesmo teceu”. Nessa lógica, a cultura é a própria condição de existência dos seres humanos, produto das ações por um processo contínuo, através do qual, os indivíduos dão sentido à suas ações. Ela ocorre na mediação das relações dos indivíduos entre si, na produção de sentidos e significados.

Por outro lado, é importante compreender que a cultura, enquanto estrutura simbólica funciona como exercício de legitimação de um grupo sobre outro. Logo, a cultura tem lugar proeminente nos processos de hierarquização e diferenciação social. Como alerta Pierre Bourdieu (1989), embora, não haja nenhum elemento objetivo que diga que uma cultura é superior às outras, os valores tácitos atribuídos por certos grupos em posição dominante numa dada configuração social delimitam a cultura considerada legítima. As relações de poder implícitas na distribuição do capital cultural, portanto, não é um reflexo automático da posição dos grupos dominantes. A hegemonia de suas práticas culturais é também o resultado de uma luta para inculcar os valores tidos legítimos.  A cultura, para Bourdieu (1998), aparece, então, indissociável dos efeitos da dominação simbólica e é um elemento de luta entre os sujeitos nos diferentes campos pela demarcação de posições sociais distintas.

Considerar a cultura desta maneira significa também ultrapassar a forma de pensá-la como uma instância autônoma e em separado: superestrutura ou nível distinto do social. Ao invés disto, cultura é pensada como categoria no sentido que Raymond Williams (1969) atribui ao termo, ou seja, problema ou questão para orientar a pesquisa, categoria, portanto, sempre em construção e constitutiva do social: longe de se apresentar como solução ou explicação prévia, propõe-se como equação a ser decifrada. Assumindo que a dominação social cria antagonismos que serão sempre contraditórios e que, portanto ensejam momentos de vitória e de derrotas de parte a parte, a cultura pode ser uma categoria importante para se examinar o campo de possibilidades colocado pelo jogo de forças do social, no qual o destino ou sina dos diferentes sujeitos históricos em confronto não estão dados de antemão.

Falar de cultura dessa forma nos leva a mais uma categoria importante na condução de nossas reflexões – a de experiência social que nos conduziu a considerar que homens e mulheres devem retornar em nossa produção ou interpretação como sujeitos sociais e não apenas como indivíduos livres, no sentido liberal do termo, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações sociais como necessidades, interesses e com antagonismos. E que em seguida tratam essa experiência em sua consciência e sua cultura, com complexidade para, só então, agir sobre uma situação dada. E a experimentam não apenas como ideias no âmbito do pensamento, mas também como sentimentos, normas, valores, obrigações que se exprimem em ações e também como resistências.

A análise da dimensão do poder relacionado à produção da realidade social compreendida na área de concentração em pauta não se restringe, no entanto, ao estudo do Estado, dos órgãos que o compõem e das categorias sociais que o sustentam, mas inclui igualmente todos os movimentos gerados a partir de segmentos sociais exteriores ao próprio Estado e reduzidos a uma condição subalterna, as demandas variadas que impõem a sua capacidade organizativa e o modus operandi da sua atuação. Entendemos que é preciso levar-se em consideração as estratégias de cooptação desenvolvidas pelos poderes públicos no confronto com os grupos sociais, trazendo muitas vezes para a sua órbita de influência movimentos e/ou instituições sociais cuja gênese era exterior ao próprio Estado (RÉMOND, 1994, p. 24).

A área contempla igualmente os poderes periféricos, moleculares, situados em um âmbito restrito. Poderes que se revelam no cotidiano e se encontram incrustados em instituições que não apresentam uma conotação política evidente, tais como a família, as entidades educacionais e religiosas e as associações lítero-culturais e recreativas. Poderes que não apenas reprimem, mas que são ao mesmo tempo criadores, instaurando uma disciplina de gestos, comportamentos e discursos. Esse tipo de abordagem, entretanto, não se opõe necessariamente ao estudo do poder de Estado. Pelo contrário, ambos os níveis devem ser analisados em conjunto uma vez que o Estado e suas estruturas se constituem apenas em um instrumento de um sistema de poderes que não se encontra unicamente nele localizado, mas que o ultrapassa e complementa.

Assim, é necessário que por uma orientação metodológica de caráter macro acompanhemos as relações de poder que, partindo do Estado, se prolongam pelo conjunto da sociedade e se reproduzem de modo atomizado nos domínios mais insuspeitos da vida social. No outro oposto da escala, pode-se interrogar a respeito de como os ditos micro-poderes, os quais possuem uma história própria e procedimentos específicos, se relacionam com o nível mais geral do poder constituído pelo aparelho de Estado (MACHADO, 1979:xiii). Ao procedermos dessa maneira, temos condições de revelar conexões insuspeitas entre o poder de Estado e os micro-poderes bem como configurações inéditas da cartografia política de uma dada sociedade, uma vez que a constituição do Estado é feita do conjunto dos níveis macro e micro cujas articulações, conforme esclarece Revel (1998, p. 32), necessitam ainda serem identificadas e pensadas.

Os estudos sobre cultura política e poder permitem também a análise dos conteúdos simbólicos que integram as representações, com sua irradiação sobre o espaço público e/ou privado. Nesse aspecto particular, ao domínio sócio-político da realidade histórica associa-se o domínio cultural, buscando-se compreender a maneira pela qual os distintos grupos sociais elaboram critérios de interpretação do mundo que os rodeia de modo igualmente distinto. As representações assim construídas não são de modo algum discursos neutros, mas produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados. Desse modo, as ideias, materializadas em discursos, gestos, rituais e símbolos iconográficos e reproduzidas tanto pelo saber erudito quanto pelo senso comum, se convertem em poderosos instrumentos de produção de identidades e alteridades associadas ao exercício do poder, ao mesmo tempo em que encorajam à ação, instruindo os comportamentos políticos que pretendem construir o mundo segundo uma determinada ótica.

Assim definida, a área de concentração em História: cultura e poder pretende viabilizar estudos históricos e historiográficos, seja no nível das micro-relações, seja no nível das relações macro políticas, tendo como objeto o poder e o modo pelo qual o mesmo é distribuído no interior da estrutura social, incluindo-se aí tanto os aspectos das práxis política efetiva quanto as concepções, visões de mundo e reflexões político-filosóficas a ela associadas.